Jejum intermitente aliado à radioterapia

Jejum intermitente aliado à radioterapia

Já se passaram 3 anos, me lembrei daquele dia cinzento. Era bem cedo e a garoa fina deixava o dia de verão com um ar melancólico, sentimento que eu brevemente experimentaria, horas depois num debate ao qual estava indo.

Não era parte da equipe multiprofissional fixa do hospital, havia sido convidada à pedido de um jovem médico e iria integrar a discussão de um caso clássico de câncer gástrico. Fora chamada não para discutir protocolos da radioterapia à que aquele homem seria submetido, mas para trazer uma nova proposta, que eu defendia firmemente em consultório e bem embasada em ciência.

A ideia era ousar com os princípios fundamentais da radioterapia sobre a geração de radicais livres por interação com as moléculas de água e, usar o controverso princípio da restrição calórica, que tem mostrado induzir mudanças nos caminho bioquímicos celulares, melhorando a radiosensibilidade das células tumorais.

Que o carboidrato é fonte alimentar primordial da célula neoplásica e portanto deve ter consumo limitado, já era bem conhecido e aceito na comunidade, mas a ideia de induzir uma restrição severa (ou até cetogênica), baseando–se numa dieta de hidratação em um paciente de câncer, ainda precisava ser vendida, para isso eu estava lá.

Já tinha explicado todos os possíveis caminhos bioquímicos envolvendo a tumorigênese1 e angiogênese2 versus nutrição. Mostrava diversos estudos a todos na sala, aparentemente bem atentos e interessados, quando iria iniciar minha proposta dietética percebo um rápida mudança de comportamento, alguém sugerira ao fundo… “lá vem uma ideia mirabolante”.

Baixei a cabeça…a falta de profissionalismo era notória, aquele desânimo que se assemelhava ao dia cinzento, bateu à minha porta. Não queria acreditar que ainda seria obrigada a me deparar com aquele tipo de situação numa equipe de saúde.

Respirei fundo... mesmo fundamentada, minha proposta àquele caso parecia ter perdido a graça, até o momento em que levantei o olhar, preparada para continuar e, me deparei com ninguém menos que o nosso paciente, único em pé, embora com dificuldade e cansaço evidentes, ao fundo da sala com olhar fixo em mim, aguardando que eu o visse para me pedir: “Por favor doutora, continue! Como diria “Ray”: O que seu médico não sabe sobre medicina nutricional pode estar matando você. Eu quero ouvir sua proposta.”

Estava dito, não precisaria falar muito mais... Minha ideia do ‘novo’, já tinha sido endossada. O que havia sido citado era o título de um interessante livro de Ray Strand MD que eu um dia havia sugerido a leitura e ninguém menos que o paciente queria tentar, tentar um plano complementar àquele tratamento tradicional proposto por seu oncologista.

Brevemente propus a base da dieta. A restrição calórica seria imposta no dia a dia, por 2 meses, para minimizar o aporte de nutrientes às células malignas. Dieta líquida seria a base para garantir o melhor aporte hídrico à radioterapia para apoio e eficiência e o jejum intermitente seria praticado durante a semana,  proposto antes e após a radioterapia, ponto mais controverso daquele plano alimentar.

A “loucura” estava em submeter um paciente doente à restrição energética, clássico do paradoxo da nutrição, uma vez que basta nos adoentarmos que a primeira receita é: comer. Neste caso, eu queria o oposto. Ele estava doente mas era saudável, todos sabíamos disso. Sabemos que a restrição calórica de longo prazo pode resultar em perda de peso crônica, mas o jejum intermitente proposto antes e após cada tratamento de radioterapia poderia ser um método potencial para induzir a restrição energética celular evitando perda de peso significativa.

Esta seria uma estratégia nova e que só dependeria da aprovação médico-paciente, estaríamos a postos para emergências, poderíamos arriscar, afinal como diria M. Gandhi: “Nunca se sabe os resultados que virão da sua ação, mas se não fizer nada, não existirão resultados.”

Assim, ganhei ambos. E, aquele que antes havia suspirado com desdém se retirou da sala pensativo...

Naquele mesmo dia conversamos e a dieta foi reajustada a valores mínimos, embora suficientes, a hidratação fundamental para a radioterapia tinha como base a medicina chinesa e fitoterapia, inundaríamos o paciente com fitoquímicos antioxidantes e antiinflamatórios que melhorariam ainda mais o ambiente interno para evitar a progressão do câncer e equilibrar os danos e reparo celular imposto pela radioterapia. O jejum intermitente seria praticado por 10 a 12h antes e após cada ciclo de tratamento. Seria difícil, sabíamos disso, mas deveríamos tentar. Associar novas práticas às tradicionais, principalmente quando estas falham, como estava acontecendo naquele caso, seria a chave para a mudança de comportamento emocional do paciente e o que eu estava propondo era uma nova ajuda, difícil, porém existia alguma.

Confortado com novas expectativas, paciente e família depositaram toda a confiança nesta nova etapa e, na minha opinião, esta foi a verdadeira causa da melhora significativa nas fases seguintes do tratamento. Claramente que defendo as pautas nutricionais do caso, mas o frescor e confiança psico emocional evidentes foram fundamentais para melhora dele.

Diversas dificuldades tiveram de ser superadas, desde a adesão propriamente à dieta (não é nada fácil ou simples praticar a restrição e jejum), aos cálculos individualizados em cada fase do tratamento, receitas com sabor duvidoso embora saudáveis e manejo dos sintomas adversos. Contudo, num balanço geral, ele topava com o ânimo de um lutador. Como recompensa sua progressão foi potencialmente maior que no tratamento anterior e ali estava a nossa diferença.

Hoje, já era o terceiro ano e lá estava ele, sentado na recepção, muito carismático e, com discurso eloquente garimpava seguidores para a prática da nutrição complementar ao tratamento oncológico. Sua saúde transbordava entusiasmo, em nada se lembrava com a aparência cansada e abatida do dia do debate. Ele retornava anualmente, só para me lembrar que aquela pequena parte do seu tratamento havia feito muita diferença para ele, reafirmando categoricamente Santa Madre Teresa de Calcutá: “Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor.”

 

 

 

 

1 Tumorigênese é a formação ou produção de tumores.

2 Angiogênese é a formação de novos vasos sanguíneos.

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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