Corrida contra o câncer de mama

Corrida contra o câncer de mama

“A você nunca é dado um desejo sem ser dado o poder de torná-lo realidade” - Richard Bach

 

Domingo acordei para o que seria mais uma corrida, uma destas competições que valem pelo prazer da atividade física e de completar a prova, disputando e ganhando algumas posições de corredores que nunca mais veremos na vida. E o que era para ser um divertimento se tornou uma das experiências mais lindas que vivi.

A corrida era rosa, em outubro e, em prol do Câncer de mama. No ato de inscrição uma pergunta interessante, se tínhamos alguma motivação ou pessoas perto ou simplesmente nosso envolvimento com o Câncer de mama. O site também convidava graciosamente as pessoas envolvidas, pacientes de câncer, a participar ativamente ou como espectador daquele que estaria correndo. Não percebi de imediato o que estava sendo manejado, tudo o que fiz foi me inscrever e aguardar a data.

Curiosamente a retirada do kit da corrida se daria somente no dia do evento, algo não usual. Chegado o dia, me direcionei ao local de retirada do kit e durante o caminho fui vendo lágrimas escorrendo e uma energia toda especial no ar.

Quando abri minha sacolinha, uma surpresa. Além do meu número de peito, minha camiseta branca com o lindo símbolo da causa ostentava os dizeres: Porque eu sou Nutri!

Naquele momento parei e olhei ao entorno. Saltavam aos olhos as milhares de personalizações; famílias, amigos se abraçavam e tiravam fotos. Uma roda em especial, composta somente por Homens me chamou a atenção. Enfileirados para uma foto oficial, ali apareciam vários porquês: Sou Marido, Sou filho, Sou irmão, Sou Pai, Sou Neto, Sou Amigo. Ao centro desta foto, numa cadeira de rodas adaptada à corrida pelo filho, estava ela: Porque sou A Rafaela.

E assim dezenas e dezenas de pessoas foram se agrupando entorno de fotos que transpareciam mais que apenas uma causa, uma união. Por um breve momento todos esqueceram o motivo para que estavam ali e se dedicaram à outro, a atenção, o amor e cuidado aos portadores da doença.

Muitas camisetas traçavam praticamente uma árvore genealógica, outras traziam vida aos profissionais envolvidos, meu caso e, o que ficava ainda mais transparente era a emoção dos portadores da doença, sentindo-se acolhidos não somente pelos seus, mas por todos os que estavam ali, desnudados por uma camiseta que foi capaz de igualar todos os presentes, sem hierarquia, preconceitos ou julgamentos.

A frase no peito atraía e incentivava o público a conversar. Mais ou menos como uma estratégia para que os corredores tivessem um ponto de partida, um assunto para iniciar uma boa conversa e quem sabe troca de experiências com aquelas pessoas “estranhas” que, normalmente, somente vemos quando ganhamos posição durante a corrida.

Foi uma feliz estratégia para travar bons bate papos, conhecer novas pessoas e histórias, até mesmo durante a corrida que normalmente é solitária, mas que naquele dia a solidão foi substituída por pessoas que corriam se cumprimentando, chamando-se pelo “apelido” e conversaram durante a prova.

Ao final, dezenas de filhos, pais, mães, amigos, profissionais e apoiadores se agruparam. Muitos trocaram contatos, muitos passaram a se comunicar por mídias sociais e eu conheci a Rafaela, mulher interessante, forte e guerreira que está lutando por sua vida numa recidiva metastática do câncer de mama.

Hoje, trata uma metástase óssea, descoberta há quase um ano. Há quatro anos fez tratamento completo e cirúrgico para remoção do tumor maligno na mama. Mas, infelizmente, houve uma recaída, e ela me contou seu caso.

Mais velha de 3 irmãos, perdeu um por acidente e uma irmã, que a apoiou por todo o seu tratamento inicial, por negligência à sua própria saúde em prol da irmã mais velha. Em suas palavras um tipo de suicídio ou punição. Descobriram concomitantemente 2 graves doenças, uma com AIDS e outra o Câncer. Porém a irmã não contou, por vergonha de seus hábitos nocivos que culminaram com sua contaminação e tão logo soube do câncer da mais velha se dedicou a apoiar e suportar tudo o que a doença poderia lhes impor, algum tempo depois, uma virose a levou. Mas, o terceiro irmão ainda estava ali, a seu lado.

Rafaela transtornada ao descobrir o motivo da perda de sua irmã, se deixou abater, por breve período se desligou do mundo, pouco revoltada e desistiu de seus hábitos saudáveis, talvez também como uma forma de punição. Mas, quando teve a nova notícia, despertou. Percebeu que não poderia ter se abandonado daquela maneira, não poderia abrir mão do desejo de sua irmã, estava viva e precisava agradecer e trabalhar por isso e, até hoje investe a esta falha a recaída da sua doença.  

A partir de então vestiu a carapuça guerreira e com ela segue lutando. Ao me ver como nutri, lhe despertei uma contagiante conversa sobre como seu corpo lutava contra a doença, ao melhor “estilo Popeye” contou como retomou a base fundamental do que julgava lhe dar forças para vencer, seus hábitos alimentares. Palavra por palavra descreveu sua alimentação com uma simplicidade que não me permitia divagar muito.     “- Como o que eu planto, compro outras coisas na feira. Rego, converso, bebo e até respiro minha comida”.  

A simplicidade de suas palavras refletem a complexidade de força da natureza, em uma só frase ela mostrou praticar os princípios básicos da alimentação saudável, uma comida natural, viva e orgânica com integração à fitoterapia, aromaterapia e mindfulness. Não caberia ali mais nenhuma argumentação e explicação científica que é o que me motiva estudar, mas tão somente a contemplação da delicadeza e veracidade dos resultados.

Ela é uma riqueza de vida, mesmo dores crônicas e fortíssimas não a fazem descer o olhar, é uma fortaleza, seu modo de falar e o brilho nos olhos nos fazem esquecer seu andar lento e apoiado numa bengala, temporária como é categórica em afirmar, bem-humorada participa de eventos para apoiar bons hábitos de vida, incentivar a luta contra o medo, a transparência e quebra de paradigmas da doença. Faz isso por ela, por todos aqueles que estavam ali com suas camisetas, pela irmã que a seu ver deu a vida por ela, pelo simples prazer de ajudar o próximo e principalmente por amor e agradecimento à vida.

 

Andrea Alterio

Andrea Alterio

Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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