Outubro Rosa

Para finalizar o Outubro Rosa com chave de ouro, convidamos a bailarina Marília, de 34 anos, para um bate-bola sobre sua história de superação com o câncer de mama. Confira tudo em nossa coluna Páginas da Vida:

  1. Qual seu nome completo?

Marília Cristina da Costa e Silva, 34 anos. Sou bailarina e arte-educadora

  1.     Como e quando você descobriu o diagnóstico?

Eu tinha 28 anos. Percebi o nódulo em outubro de 2012, sou bailarina e em um dos movimentos que fazia no chão, eu senti um nódulo na mama direita. A partir disso eu agendei um ginecologista que ao realizar o exame de toque, identificou que este nódulo tinha características normais (nódulo sebáceo). Mas, na mama esquerda ela identificou um nódulo que a deixou em alerta, solicitou mamografia e ultrassonografia, e ao sair os resultados, solicitou também uma biópsia. Foram aproximadamente 2 meses até receber o diagnóstico, hoje parece que tudo foi muito rápido, mas eu me lembro que foram dias de muita angústia e aflição.

  1.      Como foi receber o diagnóstico? Quais foram os primeiros pensamentos, sentimentos e sensações a respeito?

Parece contradição, mas foi um alívio. Porque daquele momento em diante eu sabia, que enfrentaria uma luta e que deveria agir. Então minha primeira pergunta a médica foi “ok, o que devo fazer agora?”, eu me senti como nunca havia me sentido antes. Creio que neste instante eu me tornei uma mulher forte. Minha mãe e uma amiga estavam comigo, todas choraram, elas e inclusive a médica. Eu fui a única que se manteve em retidão, era um sentimento de amor pela minha própria vida, então eu sabia que eu deveria agir. Não lembro de ter pensado algo do tipo “e, agora o que fazer?”, mas eu dizia “ me diga o que fazer, eu farei.” Era um sentimento de urgência, eu devia agir o mais rápido possível. Eu não fiquei lamentando. Creio que os dias que antecederam a notícia, foram assim, mas o momento do diagnóstico foi de força e fé!

  1. Na época do diagnóstico, você sentiu falta de alguma informação ou suporte? Qual? De quem?

Não, eu confie plenamente na médica, a Dr. Thais Kubota. Mas, tive problemas com o convênio, que na época não disponibilizaria a ela, sua equipe de reconstrução mamária. Por isso, ela se negou a realizar a minha cirurgia, pois não se sentia confiante em realizar um procedimento tão delicado com um equipe desconhecida. Eu compreendi seu posicionamento, e inclusive, me soou consciente e responsável.

  1.     Em algum momento pensou em jogar tudo para o alto e desistir?

Sim. Me lembro de dois momentos que pensei em desistir. Eu de verdade, não aguentava mais e não me sentia capaz de continuar. Mas, nestes momentos de dor e aflição, alguém da minha família se aproximava, e então eu me enchia de forças. Pois, eu deveria resistir por eles. Não estaria sendo justa com eles, se me deixasse abater. Eu devia seguir por eles, para recompensá-los de toda a dedicação que ofertavam a mim naquele momento.  

  1.     Em relação ao tratamento. Por favor, conte tudo que aconteceu, desde o momento que recebeu o diagnóstico até hoje.

Eu faço o tratamento no AC Camargo, em janeiro de 2013 eu realizei a cirurgia e removi o quadrante central da mama esquerda. Em março, eu iniciei as sessões de quimioterapia, foram no total 16 e em outubro, realizei as 30 sessões de radioterapia. No primeiro instante que vi cicatriz, eu me senti mutilada, mas no segundo instante, eu me senti curada. Então, eu passei a agradecer pela possibilidade de remover algo que não pertencia ao meu corpo. Aliás, eu compreendi que o tumor, foi um colapso. Me corpo entrou em colapso, ele provavelmente estava me sinalizando que as coisas não iam bem, mas demorei a perceber e ele colapsou. Todo o tratamento eu fui extremamente disciplinada com alimentação, sabia que meu organismo seria bombardeado de medicações e que eu deveria cuidá-lo o máximo que pudesse. Também cuidei das minhas emoções, entrei em contato com muitos sentimentos e tive ao longo do tratamento apoio psicológico, o que foi essencial para que eu pudesse  transcender e transmutar alguns sentimentos. Eu não me perguntava por que aquilo estava acontecendo comigo, e sim para que. Hoje eu sei, que foi para que eu me tornasse quem eu deveria ser! Durante o tratamento, eu mergulhei no meu interior, descobri a mulher linda e forte que sou, mas também reconheci as minhas fragilidades e principalmente tomei consciência do quanto irresponsável eu havia sido comigo mesma. No momento do tratamento eu assumi as rédeas da minha vida, sabia que ninguém poderia fazer por mim. Eu deveria agir e lutar pela minha própria vida. E assim fiz, lutei com todas as forças que tive e tenho, cai muitas vezes, e as vezes era difícil me reerguer. Cada vez que eu me levantava, eu me sentia mais forte. Eu fui confiante e positiva o tratamento todo, isso não quer dizer que a tristeza não tenha me feito companhia. A tristeza foi uma grande aliada, eu a acolhia e tentava entender o que além da dor ela podia me dizer. Outra grande companheira, foi a que eu chamei de Dona Morte. Sim, ela esteve comigo lado a lado, somos íntimas e grandes parceiras da vida, não me lembro de ter ficado assustado com ela, mas eu sabia e sei que ela existe, isso alterou completamente a minha relação com a vida. Descobri que a vida é finita. E por isso, nada a fazer, a não ser caminhar e contemplar a paisagem. Ah, o dia do cabelo. Eu sabia que ele cairia, mas senti-lo cair foi angustiante no primeiro momento, eu então decidi fazer deste momento um ritual de passagem. Meus pais e minha madrinha estavam comigo, fizemos nossas orações, lembramos das mulheres guerreiras que cortavam seus cabelos em sinal de força. E assim aconteceu, meu cabelo foi raspado, eu senti uma linda e leve sensação de liberdade. Resolvi guardá-lo para entregar de volta a Natureza, e ao longo dos 3 anos seguintes eu fiz uma jornada. Viajei por alguns lugares e entreguei o cabelo à Terra, Água, Fogo e Ar. Assim, eu renasci. Assim, eu me transformei. Sou grata pela doença, pois hoje reconheço que vivi um doloroso porém lindo processo de transformação, e me tornei quem eu deveria SER.

  1.     De todo o tratamento: qual foi a fase mais difícil para você e sua família?

Para mim, com certeza foram os dois meses de investigação. Para a minha família, creio que tenha sido o tratamento todo, eu via nos olhos deles o quanto sofriam. Por isso, eu tentava ao máximo não demostrar à eles a minha fragilidade. Nem sempre, eu conseguia.

  1. Houve algo que fazia parte da sua rotina e que atualmente não faz mais? Por quais razões?

Não sei se compreendi bem a pergunta. Mas vou fazer um paralelo entre o que eu fazia antes e depois da doença. Antes, trabalhava como bailarina em uma companhia de dança e me sentia no auge da minha melhor performance, meu corpo era ágil e forte. Ao longo do tratamento eu me afastei da dança, até tentei, mas era frustrante. Meu corpo não respondia aos comandos, eu lembrava de como ele era antes e isso me causava muita tristeza. Cheguei a pensar que jamais voltaria a dançar. Engordei 10 kilos e meu corpo se transformou muito. Mas, eu nunca deixei de dançar nos pensamentos. Dançava o dia todo. Quando recebi alta médica, meu médico Dr. Alessandro pediu que eu retornasse à dança, e aos poucos fui entrando em contato com o meu corpo. Foi difícil aceitar que ele jamais seria o mesmo, não por que eu havia retirada parte da mama, mas principalmente por que eu não era mais a mesma. Fui entendo que o virtuosismo dos movimentos estavam na sutileza e não na força, estava no olhar e não no salto, estavam no gesto e não apenas na técnica. Vi uma outra dança nascer em mim, mais sensível. Eu então, criei um solo de dança, um depoimento poético chamado Inquieta Razão, em que o processo de transformação que vivi com a doença transcende os aspectos da dor e do sofrimento e alcançam a beleza da transformação. Por que entendi, que na verdade aquilo tudo foi um intenso processo de transformação. Hoje eu sigo dançando a vida, sou pleno movimento. Ah, tinha algo que fazia parte da minha rotina, eu não cuidava das minhas emoções, cuidava do meu corpo por ser bailarina me alimentava bem e praticava atividade física, ás vezes ultrapassava os limites, o que também não era saudável. Eu  pensava muito mais em atender aos outros do que a mim mesma. Isso hoje não faz mais parte da minha rotina, e me coloco em primeiro lugar e sei que eu estando bem eu posso contribuir muito mais com todos aos meu entorno.

  1. Como era a Marília antes do diagnóstico e como é a Marília agora? O que mudou?

Creio que eu era um alguém qualquer. Hoje eu sou a Marília. Sei da minha força e da minha capacidade de transcender a dor.  

  1. Como você imagina a sua vida daqui para frente?

A minha vida desde o fim do tratamento têm sido de gratidão. Eu redirecionei os meus passos profissionais, hoje tenho certeza que estou onde deveria estar. Encontrei um parceiro que me fortalece ainda mais. Eu reconheço, que ainda preciso compreender e transcender muitas aflições, mas sei que minha vida é valiosa e finita. Isso faz com que eu aproveite ainda mais as oportunidades que encontro pela frente.

  1. O que você acha da campanha Outubro Rosa?

Uma campanha necessária, não apenas para falarmos sobre o autoexame e os cuidados de prevenção. Mas principalmente para falarmos sobre o Câncer de Mama, e desmistificar muitas coisas. O câncer tem cura. O tratamento pode ser longo e doloroso, mas tem cura! E apesar das transformações que acontecem na mulher a doença pode deixá-la ainda mais bela e forte. Desde 2015 eu apresento o solo Inquieta Razão de forma voluntaria, com o propósito de disseminar um testemunho de cura. Neste ano de 2018, eu também participei de algumas outras campanhas e sei que por toda a minha vida em outubro eu serei lembrada por algumas pessoas e convidada a falar sobre o processo que vivi.

Link Inquieta Razão (estreia março/2014, 5 meses após a alta médica: https://www.youtube.com/watch?v=Zen5H-2Q1uI).

  1. Deixe uma mensagem para todas as pessoas que enfrentam ou já enfrentaram o câncer de mama.

O câncer de mama foi para mim um processo de descoberta do meu verdadeiro Eu, e por isso sou grata à doença. Alguns chamam isso de resiliência, eu chamo de transcendência. Precisamos desvelar as cortinas da dor e do sofrimento para que possamos ver a belíssima paisagem que existe além dela.

Juliana Artigas

Juliana Artigas

Pode me chamar de Ju. Jornalista, paulistana nata e balzaquiana. Apaixonada pelo comportamento humano e não dispenso um abraço demorado. Acho que toda história (boa ou não) merece ser contada. Amorosa, sonhadora e chorona. Quer me ganhar? Basta falar sobre o amor.  

  • IKCC - International Kidney Cancer Coalition
  • World Ovarian Cancer Day
  • WAPO - World Alliance of Pituitary Organizations
  • The Carcinoid Cancer Foundation
  • Alianza GIST
  • The Life Raft Group

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