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O Poder da Alimentação


09/03/2017

“E mesmo cansado de tudo a gente aguenta firme, por algo ou por alguém…”

 

 

Dia de visita clínica em uma casa de repouso local, onde sempre se aprende com aqueles que nos antecedem, e neste dia não foi diferente.

 

No quarto 51 deitado em uma cama estava o Sr. Vittorio, um italiano com uma pouco mais de 80 anos. Cabelos brancos e rosto marcado de uma vida não somente bem vivida, como agredida pelos mais de 60 anos fumando. Ali estava ele, em observação pós-tratamento quimioterápico para seu carcinoma de células renais. Sentia–se cansado, nauseado e com muitos episódios de vômitos decorrentes do efeito colateral das drogas.

 

Começamos a conversar, ele queria saber como eu poderia ajudá–lo a minimizar o impacto daquelas sensações e melhorar sua disposição, pois não queria perder o baile da casa que aconteceria em duas noites, onde ele encontraria sua esposa. Queixava-se, pois há dias que não a via, seus filhos a afastaram por cuidado, por temer tristeza por sua condição debilitada.

 

Perguntei–lhe sobre seu tratamento, precisava saber o que ele entendia da doença e reunir todas as informações que eu tinha a respeito da nutrição e câncer renal; com bastante lucidez ele explicava trocando os conceitos técnicos pela simplicidade que lhe convinha. Consistia em uma combinação de terapia alvo e imunoterapia (interleucina). A cirurgia não havia sido possível em seu caso devido a idade avançada e sua debilidade respiratória. Ele praguejava o tempo em que levou o primeiro cigarro a boca. Mesmo sem saber explicar, atribuía ao fumo todas as dificuldades de sua vida e não estava de todo errado.

 

Seu câncer havia sido descoberto em estágio mediano, poderia ter sido submetido a uma nefrectomia, todavia devido aos efeitos nocivo do fumo ao pulmão, já não conseguiria mais suportar uma mesa cirúrgica. Seu pulmão havia por anos absorvido os compostos químicos cancerígenos da fumaça do cigarro, depreciando não somente sua função como deixando passar a corrente sanguínea tais compostos. Com o papel de filtrar o sangue seu rim acabou concentrando muitos destes químicos que acabaram por gerar danos mais importantes e danificar o DNA de suas células renais, favorecendo o desencadeamento de seu câncer.  Claro que não podemos afirmar categoricamente que o cigarro foi o único causador de sua doença, no entanto ele foi o principal fator de risco.

 

Enquanto falava com aquele delicioso sotaque italiano, um súbito ataque de falta de ar e cansaço o atingiram, com dificuldade lamentava que a vida grandiosa que havia construído com sua esposa e 8 filhos tivesse se resumido a um quarto de 10m2 daquela casa. Mesmo em um ambiente agradável, cercado por vasos de flores, fotografias e uma vitrola que tocava uma adorável música clássica de Verdi, sentia–se desconfortável. Sabia que possivelmente trocaria seu sítio sob o sol do interior paulista por um quarto e sala na casa de um dos filhos, que o acompanharia na luta contra sua doença.

 

Naquele momento, seus olhos marejaram. Olhou para mim como uma criança a pedir ajuda. Um sofrimento dramatizado típico de sua nacionalidade, mas com uma verdade destacada, queria poder se sentir melhor, vencer aquele cansaço que não fazia parte de sua vida, sempre forte e disposto ele queria continuar assim, mas precisava de ajuda.

 

A fadiga extrema, a queda de pressão que lhe gerava mal estar e dificuldade respiratória eram sinais típicos do uso das citocinas de seu tratamento. A náusea que sentia com alguns episódios de vômitos eram sinais de outra droga associada. Mesmo que a maioria dos efeitos adversos fossem de curto prazo, desaparecendo com o término do tratamento, para Sr. Vittorio saber isso não era suficiente, não aceitava um só momento em que não podia se levantar cedo para cuidar de seu jardim ou preparar o típico café da manhã da casa (caffè con fette biscottate e marmellata) e fazer de mais um dia útil e vivido.

 

Desta forma começamos a pensar juntos, pensamos no todo, de nada adiantaria comer bem (como um bom italiano), mas continuar ocioso e lamuriando naquele quarto isolado.

Iniciamos então as orientações por aquilo que julgo ser primordial ao bom funcionamento metabólico geral, uma boa noite de sono, um despertar natural e exercícios de alongamento e relaxamento, com ciclos completos de inspiração e expiração que seriam orientados por um colega. A respiração era fundamental para oxigenação celular e melhora dos sintomas. Com dificuldade ele tentou e mais uma vez se praguejou por ter persistido por tanto tempo com aquele hábito tão maléfico.

 

Dali em diante ele seguiria a cozinha da clínica, onde ajudaria a preparar seu desjejum como costumava fazer em sua casa, isto já lhe traria um conforto emocional.

 

Das refeições maiores que em sua maioria possuem preparações com cheiros mais fortes, pedi que mantivesse um distanciamento para evitar o possível enjoo.

 

Suas refeições teriam que ser fracionadas, pequenas porções servidas a cada 2 horas. Ferramenta que para mim, a princípio, significava uma forma dele conseguir ingerir os alimentos oferecidos e minimizar a sensação de náusea e cansaço. Para o Sr. Vittorio significava também uma oportunidade de aumentar a frequência de uma companhia, uma breve conversa ou um rápido sorriso.

 

Não tinha como não sorrir diante daquela colocação, o ambiente tinha ficado ainda mais amável, então continuei: com a mesma frequência bebidas deveriam ser ingeridas, chás fitoterápicos com gengibre, hortelã, limão, calmantes como lavanda, camomila com raspas de casca de laranja e limão deveriam fazer parte do programa de combate aos sintomas. Bebidas hidratantes, como água de coco natural seriam fundamentais no cardápio para inibir uma eventual desidratação causada pelos episódios de êmese.

 

Os alimentos frios e secos teriam que compor suas refeições em uma maior quantidade, as bruschettas de pães integrais com queijo branco e tomates ou torradas com pastas de azeitona, homus ou coalhada seriam uma deliciosa opção, já que lhe trariam alguma lembrança da Itália e dariam aporte de proteínas e energia suficiente, numa forma de apresentação que minimizaria o efeito nauseante.

 

“E il mio gelato?”

Claro, como um bom italiano, os sorvetes tem que aparecer em seu cardápio. Fortuitamente ele estava previsto, em dias em que a náusea estivesse preponderante, picolés de frutas (suco de fruta congelado), principalmente limão deveriam ser usados como estratégia de conforto.

 

Por um tempo, deixaríamos de lado o consumo de proteínas animais e daríamos atenção especial a uma dieta mais leve e rica em vegetais. Preferencialmente as raízes e crucíferas (cenoura, beterraba, mandioca, mandioquinha, batatas, rabanetes, couve, couve de bruxelas, nabo, repolho, brócolis e couve-flor) deveriam ser incluídas em seus pratos, poderiam ser servidos de maneiras variadas: crus (quando possível), cozidos no vapor, refogados no azeite e alho, em forma de purês, massas ou sopas creme. Isso lhe garantiria por si só uma ampla variedade de nutrientes e fitoquímicos benéficos como carotenóides, magnésio, selênio, compostos fenólicos como os glicosinolatos e isotiocianatos, importantes não somente no tratamento do câncer renal como também dariam aporte de energia suficiente para o combate do cansaço que vinha sentindo.

 

E para a tristeza que vinha sentido por seu quadro de debilidade, associaria a alimentação rica em triptofano com ovos, laticínios e frutas a atividades que naquele estágio eu já sabia que lhe trariam prazer como ouvir música e dançar, fazer caminhadas mesmo que curtas ao lado de alguém para conversar e cuidar de um pequeno jardim, que propus ser de ervas, aproveitando–as não somente para comer, mas como para aromaterapia, respirando longamente as ervas por entre as mãos garantindo o efeito aromático das plantas. Tudo isso regado a uma boa taça de suco de uva integral que lhe remeteria a memória afetiva de um bom vinho italiano.

 

Quando me dei conta a música tinha terminado e só restava aquele nostálgico barulhinho da agulha da vitrola rodando no final de um vinil, mas lá estávamos nós numa alegre conversa em sua língua natal. Entre gesticulações de carinho enquanto eu escrevia tudo em uma ficha de orientação, Sr. Vittorio com dificuldade se sentara e me convidava para dançar, mais alegre e confiante pelo simples fato de ter reanimado a esperança de estar bem para o grande baile em que veria “La sua moglie” (sua esposa) e dançariam como antigamente.

 

No momento que achei que iria embora tendo aprendido muito da simplicidade da vida naquela visita, ele me para e encerra nossa consulta com uma graciosidade sem explicação, declamando a frase destacada no início do texto: “E mesmo cansado de tudo a gente aguenta firme, por algo ou por alguém… A gente nunca sabe se vai durar uma noite ou uma vida toda, mas se temos porque, temos que tentar.”

 

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Andrea Alterio é Nutricionista formada na Universidade São Camilo (SP) com especialidade em Oncologia Multiprofissional pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Mestre em Nutrigenética e possui outras 4 especializações em Nutrição Clínica, com ênfase em Metabologia e Bioquímica Médica, Nutrição Funcional, Obesidade e Esportes além de um Master em Nutrição Humana comportamental (coaching nutricional) em Roma, Itália.  Atualmente trabalha em consultório clínico, em São Paulo e Interior.

 

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